domingo, 24 de agosto de 2008


Impressões4 – realidades…

De volta a Luanda, à Pensão Invicta, uma pequena residencial, muito modesta, mas limpinha e … muito barata (para os preços correntes em Angola), na actual Comandante Valodi, entre os Combatentes e o largo do Kinaxixi. O velho mercado, nestes poucos dias em que aqui estamos, acaba de ser desmantelado. A azáfama de reconstrução e a pressão imobiliária não se compadecem destes locais emblemáticos! Dará lugar a mais um desses incaracterísticos Centros comerciais, com aparcamento para milhares de viaturas, que são a coqueluche de momento em qualquer continente! São os ventos da mudança e os sinais da dita modernidade!
Malange ainda é uma incógnita, mas…já começamos a estar integrados nesta peculiar forma de pensar e actuar e portanto vamos desenvolvendo os nossos contactos e reuniões de uma forma fluida, com a certeza de que tudo a seu tempo se comporá (não evita, às vezes, um certo nó no estômago, mas que acaba por se desfazer…)
Assim é, de facto, os projectos da nossa ONGD à medida que vão sendo apresentados aos potenciais parceiros, vão tendo uma visível aceitação e torna-se gratificante perceber que a nossa mensagem de cooperação e educação para o desenvolvimento, não cai em saco roto! É assim, tanto no Ministério da Educação como na Embaixada de Portugal, na Arquidiocese de Luanda, na sede da Comissão Europeia ou nas nossas congéneres Angolanas, com quem reunimos e apresentamos as nossas ideias ou projectos! Os dias são intensos, cansativos, mas gratificantes! Começa desenhar-se uma forma de participação conducente à melhoria de autonomia das populações, tal como o entendemos e desejávamos.
A data de regresso aproxima-se vertiginosamente! Queremos adiar a partida, pois tanto ainda há a tratar! Confrontamo-nos com mais uma impossibilidade…nem voo, nem alojamento! Portanto, há que rentabilizar ao máximo o tempo que nos resta! Assim o fazemos, já deixamos há muito de utilizar o carro que os amigos tão amavelmente põem à disposição, pois percebemos que é muito mais rápido andar a pé! No entanto, este não é de forma alguma, um hábito dos Luandenses que passam a maior parte do seu tempo dentro dos carros, num trânsito infernal! Claro que não é fácil ser peão em Luanda! Os passeios não existem ou estão em obras, os carros ocupam a sua maioria, portanto… só nos resta andar na rua pelo meio deles e tentar perceber a dinâmica circulante!...
Mas assim, garanto-vos, consegue-se chegar a horas! É uma solução possível, pelo menos no cacimbo! Na época do calor, já não me atrevo a recomendar!

Bela
Luanda, 14 de Agosto de 2008

Impressões2 – recordações…

Hoje, 8 de Agosto, retomo as minhas impressões. O Alfredo foi-vos relatando o seu sentir com uma distanciação que eu não possuo! Como disse, as recordações vão aparecendo fortes, vivas e os sentimentos são contraditórios! Em Luanda, os locais são imediatamente reconhecíveis, degradados uns, reabilitados outros. Neste momento a cidade é um enorme estaleiro com obras em todas as artérias. Incontáveis equipas de limpeza tentam em vão remover a terra fina e vermelha que se acumula. A atmosfera está como que envolta numa nuvem de poeira vermelha. Assemelha-se a uma cidade do deserto, só que o cacimbo, faz com que as manhãs e fins de tarde sejam bem frescas, o que ameniza um pouco este ar denso.
No fundo é a velha Luanda, degradada em muitos aspectos, mas deixando antever a sua imutável beleza! À medida que o dia avança vai-se levantando o véu, e lá pelas 16h o sol brilha num céu quase limpo!
Voltando ao 2ª dia, os caprichos do destino, levaram-me de volta ao Lar Universitário da António Barroso! O alojamento em Luanda é neste momento muito difícil de arranjar e assim socorremo-nos de uma ONGD conhecida, que após vários esforços, nos arranjou lugar num local de freiras. Ou seja, quando me dão a direcção, não queria acreditar! É verdade! Cá estava eu de volta ao local donde tinha partido! Só que… em condições inenarráveis! A rua… quem vem da A. Barroso e a partir do portão de entrada, é um charco imenso e desemboca num aglomerado de casas periclitantes. O quarto…nem vos conto! Tirei fotografias e mais tarde mostro-as…Encontro a irmã Aurora, a responsável do nosso andar, lembram-se meninas? Conta-me que neste momento, já só detêm a parte do edifício onde era o alojamento delas. O nosso lado foi vendido ao arcebispado e é explorado por uma congregação de irmãs mexicanas que são as nossas hospedeiras e que ela crítica veladamente pela falta de autoridade! Este dia é deveras desanimador, pois tudo é mau (desde o local do alojamento, ao jantar, à falta de água, ao pequeno almoço…) Se não fosse a recordação dos dias aprazíveis do fim-de-semana, passados com o primo em Viana, não sei se aguentaríamos…
Vale-nos em seguida uma amiga do Alfredo, que também aqui em Luanda em trabalho, é inexcedível em simpatia e acaba por nos levantar a moral…e o mesmo terei que dizer em relação aos nossos amigos Angolanos, que nos aconchegam com a sua simpatia!
Somos em seguida convidados para participar numa conferência, “Sociedade Civil e Política em Angola” na U. Católica, da qual já conhecem o relato. Foi uma lufada de entusiasmo ver o pulsar vivo destas forças da Sociedade Civil Angolana e rapidamente a semana chega ao fim…
Depois de uma noite agradável em companhia de amigos, voltamos a Viana ao aconchego da família! (mesmo à noite a viagem é demorada!) Há ainda a incerteza da deslocação a Malange, mas tudo se há-de resolver…
Assim optamos por relaxar e usufruir de um merecido descanso
Segunda-feira voltamos a Luanda, conseguimos alojamento mais condigno! (acho…)

Bela
Viana, 9 de Agosto de 2008


Impressões – regresso…

Ao fim de 33 anos eis – me de regresso à minha Terra Angolana! Não sei se saberei transmitir as múltiplas sensações que me assaltam de imediato…a pouco e pouco a memória trás – me de volta a imagem, o nome, de lugares, ruas, que julgava esquecidas…É certo que muito está diferente, mas no essencial tudo está lá!
Não sei bem explicar, mas a minha perspectiva mestiça de afro europeia, reconhece o caos urbano desta cidade, mas sente-se ao mesmo tempo emocionada com a simpatia, a calma deste povo, que nos acolhe com um sorriso e uma mensagem calorosa de boas vindas!
Começa no funcionário do controlo de passaportes, que atento, me refere o facto de a data do meu dia de nascimento, ser a mesma que a do Presidente de Angola, facto que eu já sabia, mas que dá origem a uma troca de impressões e motiva a apreensão do Alfredo, pensando que a demora se deve a algum problema! Em seguida, quando vamos levantar a bagagem falta-nos uma mala… (esta situação começa a ser crónica)! Deveu-se ao facto de termos tido um atraso de 2h no Porto e portanto chegamos a Lisboa em cima da hora de embarque para Luanda, tendo entrado para o avião, que já estava à nossa espera, numa verdadeira correria.). Não éramos os únicos nesta situação e portanto levou imenso tempo a apresentar a reclamação. O Necas lá estava pacientemente à nossa espera e recebeu-nos de braços abertos!
Mais tarde a beber uma bebida fresquinha na esplanada da antiga “Barracuda”, não resisto a ir até ao mar molhar os pés, e…o empregado logo mete conversa connosco e nos auspicia uma estadia agradável e um futuro regresso!
Neste primeiro dia tudo se passa devagar…, com a lentidão saborosa deste Continente, que eu conhecia, mas efectivamente já não recordava!
É verdade que levamos horas numa bicha, para obter um cartão para o telefone e a net! Mas… todos lá estavam, aguardando pacientemente a vez de serem vagarosa, mas simpaticamente atendidos…O mesmo se passa no banco para trocar moeda e… o regresso a casa, com o trânsito caótico e a forma indescritível como se conduz, leva horas para se transpor os poucos km que distam entre Luanda e Viana! Fizemos a viagem pela estrada da Samba, em direcção a Belas e logo dá para percepcionar as diferenciações de estatuto deste lugar. O “Belas Shoping” é um local profundamente cosmopolita, assim como os variadíssimos condomínios habitacionais, que respirariam qualidade de vida, fosse onde fosse que se situassem! Se no entanto, espraiares a vista para além dessas gaiolas doiradas, facilmente te apercebes dos bairros a perder de vista, a maior parte sem luz nem qualquer espécie de condições sanitárias, com locais em que camiões cisterna vendem a sua água (cada um factura cerca de 10.000 AKz (cada 1000 AKz são cerca de 8 €). A luz que por vezes entrevês, emana de geradores que alguns possuem. A quantidade de pessoas que circula constantemente é imensa (calcula-se que dos cerca de 17 milhões de habitantes de Angola, cerca de 5 a 6 milhões se encontram aqui em Luanda) e dado que o casco urbano se mantém praticamente igual ao que era em 75, esta população está alojada nestes imensos bairros periféricos.
Por fim chegamos a casa do primo, no bairro chinês, que tem sido inexcedível em simpatia. É um local muito agradável, embora o acesso seja ou pareça difícil, porque rapidamente me apercebo que não é tanto assim, se o compararmos com tudo que nos rodeia. O Necas continua a desempenhar brilhantemente o seu papel de anfitrião e instalamo-nos na sua casa.
Cansadíssimos depois de uma noite sem dormir, a cama sabe-nos pela vida!
Chegou ao fim este 1º dia.

Bela
Viana, 1 de Agosto de 2008