domingo, 12 de dezembro de 2010

Os Bravos da Avelã



















Vindos de perto e de longe
em grupo em que mais são elas
chegam à Terra do Frio
vendo a neve pelas janelas.
Num belo dia de Sábado
fazem-se ao caminho dos montes
a estada pr’a trás vai ficando
não sem passar algumas pontes.
Em número de 7 se contam
toda bagagem preparada
pr’a além de vinhos e frutos
sem contar com a feijoada…
Nada estraga o panorama
Nem o jindungo falta faz
dado que o casal hospitaleiro
mostra bem do que é capaz.
O sol escondendo se vai
Na terra distante de Negrões
nesse dia 4 de Dezembro
não muito longe de Pisões.

Da serra se vê a barragem
com neve e agua à mistura
bate-se o dente, pois claro,
por causa da temperatura.
E já o jantar se prepara
com todos os olhos pasmados
uma bela arrozada de frango
e uns deliciosos panados.
Tudo se arruma em casa
p’ra deliciar o momento,
e toda a gente de acordo
mas que belo apartamento.
Pr’ó Domingo se preparam
apesar da muita preguiça
planos muitos se arquitectam
mas que não incluem a missa…
A surpresa que se adivinha
o ânimo não esmorece
sim, a chuva que se abate
e cada um faz o que lhe apetece.
Porém há sempre um consenso
para o que vai acontecer
um projecto a todos comum
é preciso comer e beber!
Assim se descobre o Restaurante
ele é a vitela e os rojões
graças ao homem das vacas
e uma alheira a fazer de tapas.
A maioria não arrisca
depois daquela petiscada
a caminha p´ra casa de novo
que a tarde já vai avançada.
Só 2 se fazem á estrada
com um sorriso bem alegre
nós, p´ra casa ainda é cedo
o caminho é: Montalegre!
Compras é preciso fazer
depois de tudo combinado
e o turístico passeio
acaba no …. Supermercado.
E não é que à saída
da dita casa de compras,
encontram o hospitaleiro casal
então o que é que contas?
Conto que vamos às compras
não é assim grande proeza
mas acho que devíamos visitar
aquela loja chinesa…
E a cena logo se consuma
com muitos lls à mistura
o “tlinta e oito” e o “qualenta e um
e compras com muita fartura.
E que, de passagem se diga
que muito nos divertimos
c’o a ajuda do patrão chinês
mercamos, falamos e rimos!

Cai o Domingo e a chuva
que nos quer acompanhar
p’ra todo o lado que vamos
acaba por nos brindar.
vem a Segunda e com ela
Mais chuva e céu nublado
mas nada abala este Grupo
e ninguém fica calado…
com muita asneira à mistura,
ninguém arrisca previsão
mas quando é que temos sol
será que só no Verão ?
E como a espera desespera
p’ra entreter os tempitos
nada melhor que a lareira
e o vinho: uns litritos….
Programa-se uma saída
com o Grupo satisfeito
e onde é que vamos agora (?)
de novo a Montalegre e a preceito.
E há uma pobre infeliz
apoquentada na cervical e lombar
que à barrosã posta diz não
porque em casa tem que ficar;
muito embora os companheiros
dela se virão a lembrar…
Mais uma noite que cai
à espera de dias melhores
e que vai fazendo o registo
minhas senhoras e senhores.

Dos fracos não reza a história
diz o povo e com razão
e este Grupo de malta
faz das tripas coração;
não tem medo das intempéries
e passeia à noite com o cão
come e bebe que se farta
com muita convicção…
E não se esquece do 1º dia
em que houve um grande nevão
e faz a Festa, porque a Vida
sem ela não teria razão!!!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A ignóbil ameaça

As medidas hoje anunciadas pelo Primeiro-Ministro confirmam as previsões dos analistas sobre o já designado PEC 3, ou seja, um terceiro assalto ao bolso dos portugueses mais desfavorecidos, em nome da “consolidação orçamental”, do “interesse nacional”, ou no limite, recordando tempos passados, “a bem da nação”. Convém desde já ler como deve ser, não esquecendo que tudo isto vem sendo devidamente preparado, nos jornais, na rádio e na TV, por comentadores políticos e económicos sobejamente conhecidos pelo seu horror aos trabalhadores. De facto, Medinas, Catrogas, Miras Amarais, Salgueiros, Cadilhes e outros da mesma laia, a quem é dado tempo de antena de forma vergonhosa, foram destilando a pouco e pouco a sua verborreia, induzindo medidas que agora são uma realidade. Esses embaixadores da desgraça, que recebem mais que uma reforma dourada, acabam por convencer a opinião pública da inevitabilidade de uma situação que ajudaram de forma velada a criar. E agora aí está: os cortes nos salários, o aumento escandaloso do IVA, os cortes nos benefícios sociais, tudo devidamente quantificado. Tudo, menos uma tímida medida, designada “imposto sobre os serviços financeiros”, decerto para ficar na sombra, numa névoa suficientemente light, para disfarçar o resto.

A “consolidação orçamental”, não passa de um mito. A obsessão pelo défice vai até ao limite de matar a economia pela raiz, destruir o aparelho produtivo, em nome de uma terciarização sem bases sustentáveis, seguindo as ordens de uma confederação de interesses de uma União Europeia verdadeiramente fracassada, enquanto projecto e vendida ao poder do sector financeiro especulativo, produtor da crise e protegido pelos Estados e pelos Governos centrais. Como interpretar, por exemplo a “protecção” oferecida à Banca, em Portugal, que pagou ao Estado 5%, em 2009, menos 20% que qualquer empresa? Quem dita o que se deve fazer é a OCDE: “O esforço de consolidação orçamental de que a economia nacional necessita é considerável e, por isso, o Governo português deve estar pronto para aumentar impostos” (27/Setembro 2010).

O “interesse nacional”, uma figura de estilo utilizada pelo Governo, para pedir sacrifícios ao povo, reforça a ideia da inevitabilidade. Mas o que é de facto o interesse nacional? O interesse de um trabalhador que ganha o salário mínimo nacional será o mesmo que o de um gestor da Banca, de uma grande Empresa, de um seleccionador nacional de futebol? Só mesmo um parvo, ou demente mental pode acreditar em semelhante alegoria. Mas é assim que se constrói mais um mito, ao tentar meter no mesmo saco tudo e todos. Por isso, é que esta treta é rigorosamente a mesma coisa que a figura abjecta, utilizada por Salazar: “a bem da Nação”. Um exemplo bem recente veio precisamente do Ministro dos Negócios Estrangeiros que defendia a imposição do limite do défice, na própria Constituição da República…

Por essa Europa, os governos aparentados com a designação “socialista”, são os melhor cumprem a tarefa de aprofundar a diferença abissal entre ricos e pobres. Utilizando uma linguagem “social” e “reformista”, vão levando a cabo uma vergonhosa política de submissão aos interesses do capital, desvalorizando o valor do trabalho, reduzindo a margem de manobra das organizações dos trabalhadores, promovendo de facto a precariedade e, no limite, o desemprego. Tem sido esta a linha do Partido Socialista no nosso País, sempre aliado à direita parlamentar, elegendo sempre os mesmo, como parceiros para aprovação de orçamentos, PECs e outras medidas penalizadoras dos trabalhadores. Aí sim, está a olhos vistos, uma conjugação de interesses, já que, na prática, são invariavelmente os mesmos: vão dividindo entre si os postos-chaves do aparelho de estado, da cúpula das empresas públicas e dos bancos, fontes propícias ao esbanjamento de recursos, espaços de partilha de regalias incomensuráveis e no limite, de escândalos sucessivos, alguns deles com resultados bem conhecidos.

A ameaça é mesmo ignóbil. Aos direitos dos trabalhadores, à sua dignidade pessoal e profissional. A redução progressiva do poder de compra e da estabilidade no emprego, induz o receio e o medo de represálias. O poder reivindicativo dos trabalhadores nestas condições é praticamente nulo. A sua inserção numa sociedade de liberdade e democracia é ferida de morte. Em Portugal, convém não esquecer, há 2 milhões de pessoas, perfeitamente arredadas de direitos, vivendo em condições de pobreza e/ou de pobreza extrema. Aquela que é apresentada agora pelo Governo como uma medida “patriótica e de interesse nacional”, o aumento do IVA para 23%, vai significar o aumento de preço dos bens essenciais, dos transportes, dos medicamentos, enfim de praticamente tudo, penalizando as camadas mais desfavorecidas da população.

A ameaça, para além de ignóbil, é também imoral. Estimula e amplifica as desigualdades. Merece repúdio generalizado. Implica uma resposta rápida e eficiente das organizações dos trabalhadores e outras organizações da sociedade civil. Como hoje já aconteceu em toda a Europa, nomeadamente em Bruxelas, com 100 mil manifestantes vindos de toda a União Europeia.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008



CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 4: Batiks…

Quase na partida deste País que ora conheci, apenas algumas imagens, algumas terras, pouco porventura, para além de Maputo, Inhambane, Tofo, Bilene, Manhiça, Xai-Xai, enfim o que foi possível. Quisera ter visto mais de perto como vivem as pessoas, um aspecto que fica nos relatos dos amigos, nas conversas de rua, nos cafés, nos hotéis. Da janela do 4º andar do Girassol me despeço do azul do mar, hoje com mais ondulação, alguns barcos, uma vista magnifica, complementada com o verde da vegetação, as cores dos edifícios, o recorte das ruas. As arrumações, o fecho das malas (um pavor…), as últimas notas, as mensagens, aquela sensação que falta sempre qualquer coisa, que vai esquecer isto ou aquilo. O importante agora é mesmo partir, já que tem que ser e chegar o mais rápido possível ao destino, a casa, a família, os amigos, as rotinas habituais que também fazem alguma falta, diga-se de passagem.

Estamos fora de Portugal desde finais de Julho, as emoções em Angola e aqui em Moçambique foram sempre muito fortes, as expectativas foram de facto superadas, existe uma certa curiosidade sobre a nossa prestação em África, iremos tentar que as respostas sejam o mais possível próximas do que se espera. O contributo que uma organização da sociedade civil, com algumas características que as pessoas consideram especiais (sem qualquer receio do termo…), pode significar irá a partir de agora ser testado em situações concretas, nos 2 Países, enquanto se analisa, com o pormenor necessário, as questões ligadas à organização local, que assumirá em cada um dos países, formatos adequados.

Batiks para levar; o termo, muito vulgar em Moçambique, designa uma técnica de panos pintados; a exploração artesanal introduz uma industria local de algum significado, há artistas que produzem panos de belíssimo efeito visual; de dimensões variadas, podem apresentar variadas formas, conforme a origem, o mais usual tem formato de rectângulo, medindo à volta de 65 X 25 cm, a pintura é feita em altura; há ainda batiks maiores, podendo assumir 1,35 m de largura e cerca de 85 cm de altura. Nos panos são pintados motivos tradicionais, com a ida à agua, os trabalhos da mulher (muitos), a pesca, etc… ; a pintura é coberta com cera, conferindo alguma consistência ao pano, tornando-o mais pesado, à semelhança de uma tela. A imagem de uma feira de Batiks (foto), os panos esvoaçando ao vento é simplesmente espectacular, o colorido é fantástico, há para a todos os gostos, todas as cores… Os desenhos são feitos com cera quente e coloridos com tinta; a técnica batik consiste no tingimento após a impermeabilização de partes da tela, que pode ser em algodão, seda pura ou mesmo couro; as áreas recobertas com cera ficam impermeabilizadas e é com ajuda da cera e banhos sucessivos de tinta que se obtém a sobreposição dos diversos tons.

Apetece então dizer “vou-me embora, vou partir mas tenho esperança /de correr o mundo inteiro, quero ir…”, todas as partidas custam um pouco, fica a certeza de voltar, sempre…

Maputo, 11 de Setembro 2008
Alf.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008




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CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 2: Inhambane


Se das Áfricas posso levar alguma calma, conforto talvez nas paragens sem fim, aqui ficam as praias do Tofo, na costa de Inhambane. Moçambique diferente, acima de Maputo, quase 600 km para Norte. Terras novas para mim encontradas. Finalmente. As praias, o bar Dino´s, o mercado, o sorriso de Anifa; todo o dia sopra uma ventania terrível que vem não se sabe bem de onde, parece ser de todo o lado, por vezes fresco de mais, para mim frio, claro; os dias passam-se entre a praia e o mercado, da casa onde estamos é mais perto ir a pé pela praia, não mais que uns 300 metros. Como não temos Internet, estamos por assim dizer “unplugged” e deixamos assim o portátil em sossego.A viagem é muito agradável, paramos em Xai-Xai, obrigatória a visita à praia, magnifica por sinal, um bom almoço, não sem uma longa espera; dá para apreciar aquele que poderá vir a ser num futuro breve um ponto turístico de eleição, com imensas possibilidades a explorar. Ficamos a saber que em Manhiça (no caminho para o nosso destino, a 80 km de Maputo), onde há falta de água, se prepara uma importante intervenção com vista a desenvolver o cultivo de trigo.


Embora o grupo queira sobretudo descansar um pouco, não descuramos saber o que se passa na sociedade civil e detectamos aqui e além carências e necessidades que poderão ser objecto de trabalho futuro. Quanto a vias comunicação, fica o registo que são boas, estradas aceitáveis, sinalização mínima e algum controle policial que dá, por assim dizer, uma confortável segurança.


No horizonte está o Congresso de 1 a 4 de Setembro, onde temos 3 comunicações a ultimar, nos intervalos já se pensa nisso, falta pouco tempo, a responsabilidade é muita e, embora sem stress, vamos cumprindo as nossas metas.


Tofo, 30 de Agosto 2008

Alf.

terça-feira, 2 de setembro de 2008


CRÓNICAS MOÇAMBIQUE 1: Maputo


A chegada a Maputo a 20 de Agosto, um atribulado dia, após algumas confusões em Joanesburgo, (ficam decerto como complemento de viagem), há sempre algo de novo num País desconhecido. Alojado principescamente em casa do César, amigo novo, parceiro novo, anfitrião inexcedível, uma família encantadora. Do 29º andar, frente ao mar, avista-se a cidade em toda a sua extensão, uma delícia para a vista; à varanda, no fim da tarde, curte-se a cidade do alto, bebe-se um copo, apreende-se devagar a geometria das ruas e projectam-se passeios a pé. Até Sábado, dia de mudança para o Girassol Bahia Hotel, esperando o grupo que chega de Portugal. Comer bem e beber melhor, 3 dias de relaxe, pondo em dia conversas adiadas, falar dos amigos de longa data, reviver outros tempos.

Para quem passou quase 1 mês em Angola, a primeira sensação é a da limpeza das ruas; não existe aqui a pressão demográfica de Luanda, em contrapartida um assédio constante e premente dos vendedores de rua; num passeio de Sábado a pé pelas ruas é vê-los com panos, telas, cestos, bugigangas, artigos feitos à mão; na 24 de Julho, grande avenida de referência na capital, ao pé do Shopping Polana, é um rodopio constante e envolvente; refugio-me numa belíssima esplanada, mesmo assim abordado de longe, não faz mal, este dia não é para comprar nada, intervalo. Passeia-se pela baixa, sempre a pé, para sentir a cidade, fala-se com as pessoas, simpáticas sempre, uma indicação aqui outra acolá, acabamos por descobrir o que queremos, a avenida Lenine, a 25 de Setembro (data do Dia das Forças Armadas , feriado nacional em Moçambique ). No Domingo, já com o grupo completo, visitamos no Centro Cultural Franco-Moçambicano, uma belíssima exposição, passamos na Casa de Ferro, desenhada como casa do Governador, por Gustave Eiffel no final do século XIX, pela Estação Central dos Caminhos de Ferro, edifício também desenhado por Eiffel no início do século XX; acrescento ainda o belíssimo edifício do Instituto de Meteorologia e a Igreja de Sto. António da Polana; o mercado da baixa é uma delicia, fazemos compras para o jantar, camarões claro, que iria ser o prato forte, com muito jindungo (aqui é piri-piri, atenção!), acompanhado por bom vinho português.

Duas excelente reuniões de trabalho, no Ministério da Ciência e Tecnologia e na Faculdade de Engenharia, servem de ponto de partida para o nosso trabalho por cá, muita receptividade e boas perspectivas futuras; consolida-se a nossa presença em Moçambique, o nosso representante desmultiplica-se em proporcionar encontros e contactos interessantes.

Desenha-se a hipótese de uma viagem a Inhambane, a meio da semana próxima. Começa a preparar-se a partida, não sem equacionar todas as demarches necessárias, o alojamento, o aluguer da viatura, enfim aquela ânsia característica, quando não sabemos bem o que teremos pela frente, o mar que nos espera, tão perto e tão longe, são mais de 500 km para o Norte, como será o percurso, viemos de tão longe, onde nos vamos encontrar…

Maputo, 24 de Agosto 2008

Alf.

domingo, 24 de agosto de 2008


Impressões4 – realidades…

De volta a Luanda, à Pensão Invicta, uma pequena residencial, muito modesta, mas limpinha e … muito barata (para os preços correntes em Angola), na actual Comandante Valodi, entre os Combatentes e o largo do Kinaxixi. O velho mercado, nestes poucos dias em que aqui estamos, acaba de ser desmantelado. A azáfama de reconstrução e a pressão imobiliária não se compadecem destes locais emblemáticos! Dará lugar a mais um desses incaracterísticos Centros comerciais, com aparcamento para milhares de viaturas, que são a coqueluche de momento em qualquer continente! São os ventos da mudança e os sinais da dita modernidade!
Malange ainda é uma incógnita, mas…já começamos a estar integrados nesta peculiar forma de pensar e actuar e portanto vamos desenvolvendo os nossos contactos e reuniões de uma forma fluida, com a certeza de que tudo a seu tempo se comporá (não evita, às vezes, um certo nó no estômago, mas que acaba por se desfazer…)
Assim é, de facto, os projectos da nossa ONGD à medida que vão sendo apresentados aos potenciais parceiros, vão tendo uma visível aceitação e torna-se gratificante perceber que a nossa mensagem de cooperação e educação para o desenvolvimento, não cai em saco roto! É assim, tanto no Ministério da Educação como na Embaixada de Portugal, na Arquidiocese de Luanda, na sede da Comissão Europeia ou nas nossas congéneres Angolanas, com quem reunimos e apresentamos as nossas ideias ou projectos! Os dias são intensos, cansativos, mas gratificantes! Começa desenhar-se uma forma de participação conducente à melhoria de autonomia das populações, tal como o entendemos e desejávamos.
A data de regresso aproxima-se vertiginosamente! Queremos adiar a partida, pois tanto ainda há a tratar! Confrontamo-nos com mais uma impossibilidade…nem voo, nem alojamento! Portanto, há que rentabilizar ao máximo o tempo que nos resta! Assim o fazemos, já deixamos há muito de utilizar o carro que os amigos tão amavelmente põem à disposição, pois percebemos que é muito mais rápido andar a pé! No entanto, este não é de forma alguma, um hábito dos Luandenses que passam a maior parte do seu tempo dentro dos carros, num trânsito infernal! Claro que não é fácil ser peão em Luanda! Os passeios não existem ou estão em obras, os carros ocupam a sua maioria, portanto… só nos resta andar na rua pelo meio deles e tentar perceber a dinâmica circulante!...
Mas assim, garanto-vos, consegue-se chegar a horas! É uma solução possível, pelo menos no cacimbo! Na época do calor, já não me atrevo a recomendar!

Bela
Luanda, 14 de Agosto de 2008

Impressões2 – recordações…

Hoje, 8 de Agosto, retomo as minhas impressões. O Alfredo foi-vos relatando o seu sentir com uma distanciação que eu não possuo! Como disse, as recordações vão aparecendo fortes, vivas e os sentimentos são contraditórios! Em Luanda, os locais são imediatamente reconhecíveis, degradados uns, reabilitados outros. Neste momento a cidade é um enorme estaleiro com obras em todas as artérias. Incontáveis equipas de limpeza tentam em vão remover a terra fina e vermelha que se acumula. A atmosfera está como que envolta numa nuvem de poeira vermelha. Assemelha-se a uma cidade do deserto, só que o cacimbo, faz com que as manhãs e fins de tarde sejam bem frescas, o que ameniza um pouco este ar denso.
No fundo é a velha Luanda, degradada em muitos aspectos, mas deixando antever a sua imutável beleza! À medida que o dia avança vai-se levantando o véu, e lá pelas 16h o sol brilha num céu quase limpo!
Voltando ao 2ª dia, os caprichos do destino, levaram-me de volta ao Lar Universitário da António Barroso! O alojamento em Luanda é neste momento muito difícil de arranjar e assim socorremo-nos de uma ONGD conhecida, que após vários esforços, nos arranjou lugar num local de freiras. Ou seja, quando me dão a direcção, não queria acreditar! É verdade! Cá estava eu de volta ao local donde tinha partido! Só que… em condições inenarráveis! A rua… quem vem da A. Barroso e a partir do portão de entrada, é um charco imenso e desemboca num aglomerado de casas periclitantes. O quarto…nem vos conto! Tirei fotografias e mais tarde mostro-as…Encontro a irmã Aurora, a responsável do nosso andar, lembram-se meninas? Conta-me que neste momento, já só detêm a parte do edifício onde era o alojamento delas. O nosso lado foi vendido ao arcebispado e é explorado por uma congregação de irmãs mexicanas que são as nossas hospedeiras e que ela crítica veladamente pela falta de autoridade! Este dia é deveras desanimador, pois tudo é mau (desde o local do alojamento, ao jantar, à falta de água, ao pequeno almoço…) Se não fosse a recordação dos dias aprazíveis do fim-de-semana, passados com o primo em Viana, não sei se aguentaríamos…
Vale-nos em seguida uma amiga do Alfredo, que também aqui em Luanda em trabalho, é inexcedível em simpatia e acaba por nos levantar a moral…e o mesmo terei que dizer em relação aos nossos amigos Angolanos, que nos aconchegam com a sua simpatia!
Somos em seguida convidados para participar numa conferência, “Sociedade Civil e Política em Angola” na U. Católica, da qual já conhecem o relato. Foi uma lufada de entusiasmo ver o pulsar vivo destas forças da Sociedade Civil Angolana e rapidamente a semana chega ao fim…
Depois de uma noite agradável em companhia de amigos, voltamos a Viana ao aconchego da família! (mesmo à noite a viagem é demorada!) Há ainda a incerteza da deslocação a Malange, mas tudo se há-de resolver…
Assim optamos por relaxar e usufruir de um merecido descanso
Segunda-feira voltamos a Luanda, conseguimos alojamento mais condigno! (acho…)

Bela
Viana, 9 de Agosto de 2008


Impressões – regresso…

Ao fim de 33 anos eis – me de regresso à minha Terra Angolana! Não sei se saberei transmitir as múltiplas sensações que me assaltam de imediato…a pouco e pouco a memória trás – me de volta a imagem, o nome, de lugares, ruas, que julgava esquecidas…É certo que muito está diferente, mas no essencial tudo está lá!
Não sei bem explicar, mas a minha perspectiva mestiça de afro europeia, reconhece o caos urbano desta cidade, mas sente-se ao mesmo tempo emocionada com a simpatia, a calma deste povo, que nos acolhe com um sorriso e uma mensagem calorosa de boas vindas!
Começa no funcionário do controlo de passaportes, que atento, me refere o facto de a data do meu dia de nascimento, ser a mesma que a do Presidente de Angola, facto que eu já sabia, mas que dá origem a uma troca de impressões e motiva a apreensão do Alfredo, pensando que a demora se deve a algum problema! Em seguida, quando vamos levantar a bagagem falta-nos uma mala… (esta situação começa a ser crónica)! Deveu-se ao facto de termos tido um atraso de 2h no Porto e portanto chegamos a Lisboa em cima da hora de embarque para Luanda, tendo entrado para o avião, que já estava à nossa espera, numa verdadeira correria.). Não éramos os únicos nesta situação e portanto levou imenso tempo a apresentar a reclamação. O Necas lá estava pacientemente à nossa espera e recebeu-nos de braços abertos!
Mais tarde a beber uma bebida fresquinha na esplanada da antiga “Barracuda”, não resisto a ir até ao mar molhar os pés, e…o empregado logo mete conversa connosco e nos auspicia uma estadia agradável e um futuro regresso!
Neste primeiro dia tudo se passa devagar…, com a lentidão saborosa deste Continente, que eu conhecia, mas efectivamente já não recordava!
É verdade que levamos horas numa bicha, para obter um cartão para o telefone e a net! Mas… todos lá estavam, aguardando pacientemente a vez de serem vagarosa, mas simpaticamente atendidos…O mesmo se passa no banco para trocar moeda e… o regresso a casa, com o trânsito caótico e a forma indescritível como se conduz, leva horas para se transpor os poucos km que distam entre Luanda e Viana! Fizemos a viagem pela estrada da Samba, em direcção a Belas e logo dá para percepcionar as diferenciações de estatuto deste lugar. O “Belas Shoping” é um local profundamente cosmopolita, assim como os variadíssimos condomínios habitacionais, que respirariam qualidade de vida, fosse onde fosse que se situassem! Se no entanto, espraiares a vista para além dessas gaiolas doiradas, facilmente te apercebes dos bairros a perder de vista, a maior parte sem luz nem qualquer espécie de condições sanitárias, com locais em que camiões cisterna vendem a sua água (cada um factura cerca de 10.000 AKz (cada 1000 AKz são cerca de 8 €). A luz que por vezes entrevês, emana de geradores que alguns possuem. A quantidade de pessoas que circula constantemente é imensa (calcula-se que dos cerca de 17 milhões de habitantes de Angola, cerca de 5 a 6 milhões se encontram aqui em Luanda) e dado que o casco urbano se mantém praticamente igual ao que era em 75, esta população está alojada nestes imensos bairros periféricos.
Por fim chegamos a casa do primo, no bairro chinês, que tem sido inexcedível em simpatia. É um local muito agradável, embora o acesso seja ou pareça difícil, porque rapidamente me apercebo que não é tanto assim, se o compararmos com tudo que nos rodeia. O Necas continua a desempenhar brilhantemente o seu papel de anfitrião e instalamo-nos na sua casa.
Cansadíssimos depois de uma noite sem dormir, a cama sabe-nos pela vida!
Chegou ao fim este 1º dia.

Bela
Viana, 1 de Agosto de 2008